A vida de um programador ActionScript não é fácil. Apesar de ser uma linguagem OO desde a versão 2, só agora com o AS3 chegou num grau de maturidade mais interessante, e por isso ser tão recente, a maior parte dos desenvolvedores de outras linguagens ainda não sabem exatamente o que é possível ser feito com ele.
Como não bastasse isso, você está no meio do caminho entre dois mundos muito diferentes, o da Tecnologia e do Design/Motion, e a cada situação, uma saia-justa.
Isso é uma classe…
Pare para conversar com um programador Java, C++ ou qualquer outra linguagem deste tipo, e descubra o quanto isso pode ser chato. Sempre que um deles precisa te passar alguma informação sobre um projeto, a explicação começa com “uma classe é…”. Aí você é obrigado a dizer que também é desenvolvedor, formado em área relacionada a TI, e que programa orientado a objetos…
É engraçado ver o preconceito que existe com os desenvolvedores AS, mesmo sabendo que 90% não usa apenas o AS. Há algum tempo, esse preconceito era maior, era referente a qualquer pessoa que trabalhasse com web, era como se JSP, ASP, CF, PHP fossem sub-linguagens.
Mas ActionScript não é linguagem.
Sim, eu já ouvi isso e aposto que muitos ouviram/leram isso. Por algum motivo algumas pessoas, de fato, acreditam que AS não é linguagem. Afirmações como “O próprio nome já diz, é script“, obviamente repetidas por quem não tem a menor noção do que seja uma linguagem de programação, são comuns.
Você trabalha com o Flash, então faz esse layout aqui.
É normal, a história do Flash convenceu muita gente de que se trata de uma ferramenta para designers, jamais envolveria codificação pesada, jamais seria amplo o suficiente para a “criação” de uma categoria de desenvolvedores.
Não, eu não crio, eu ajudo, dou palpite, colaboro com os criativos, mas eu sou um desenvolvedor.
Faz um favor, monta esse HTML aqui, ó.
Client-side é client-side, então, se você trabalha com o Flash, deve saber montar um bom XHTML, certo? Errado! Eu não monto um HTML há anos, jamais me colocaria nessa posição – até estudar e praticar muito- não sou um especialista no assunto e tenho o maior respeito pelos bons HTMLers.
Vai fazendo que depois é só juntar o código com o Fla final, né?
Não! Isso é certamente das coisas mais irritantes do universo. Esse vai fazendo, pra mim, é como me mandarem brincar de Air Guitar, “vai tocando que daqui a pouco trago a guitarra”.
Pense na situação, o cliente chega na agência de publicidade e fala “Quero envelopar um ônibus”, o atendimento responde, “Ok, qual o modelo do ônibus, dimensões…?”, e o cliente retorna “Não sei, mas vai fazendo que depois a gente vê”. Absurdo, né? É o mesmo que o “vai programando e depois a gente junta tudo”.
Mas ele é um ótimo programador…
Eu não sou o melhor programador AS que já conheci, não acho que as pessoas devam ser avaliadas como “melhores” ou “piores”. Todo mundo tem muito a evoluir, em especial com a velocidade em que as coisas caminham.
É comum pegarmos um código nosso de meses atrás e pensar, “deus, por que eu fiz desse jeito!?”. Também não sou um extremista, tudo deve ser feito via código, tudo precisa ser feito como a teoria exige.
Acho que devemos pesar tempo e custo (esforço) para produção e nunca abrir mão do resultado, porém… Muitas vezes vemos muita gente que não produz, decompila. Em algumas agências grandes vejo isso acontecendo, código de “bons programadores” que são na verdade decompilados.
Em projetos médios, esse tipo de profissional pode sobreviver, mas será que vale a pena arriscar tanto, ou será que é melhor investir um pouco mais num profissional que de fato tem qualidade e pode contribuir pra evolução dos trabalhos, equipe e etc?
Aprendi muito os excelentes Flash developers Pedro Taranto e Filipe Silvestrim, além dos outros que não usam o AS, Victor Lopes, Thiago Toledo, Mauro Queiroz e muitos outros.
Eu sou sênior!
Numa boa, eu não dou a mínima pra esse tipo de “título”, já vi gente que no primeiro emprego é chamado de sênior, mesmo sem ter aquela experiência que faz toda a diferença na hora em que a coisa aperta.
Tem muita gente boa, que sabe muito sobre determinadas linguagens – e aqui não estou me referindo ao ActionScript – e que no entanto tem um comportamento infantil ou simplesmente é imaturo de maneira geral. Sênior? Não sei, não importa.
Tem sênior por aí que não sabe o que é Orientação a Objetos e nunca ouviu falar em Design Patterns.
Olha quanto prêmio! Quanta certificação!
Pro inferno os prêmios e certificações (sim, tenho um bando delas). Muita gente não é certificado simplesmente por não querer, tem muita gente certificada que se esconde atrás disso e não mostra um trabalho de qualidade.
Sobre os prêmios, é uma questão de contexto e oportunidade, não dou crédito.
A vida de um programador AS não é fácil, mas há sempre uma forma de contornar essas situações, o problema é que só o tempo pra mostrar quais são os caminhos.